Arquivos do caso Epstein. Dezenas de registos do FBI desapareceram

Arquivos do caso Epstein. Dezenas de registos do FBI desapareceram

Dezenas de entrevistas de testemunhas do FBI relacionadas com a investigação de Jeffrey Epstein parecem estar em falta no enorme conjunto de ficheiros divulgado pelo Departamento de Justiça no mês passado, entre os quais o de uma mulher que acusou Trump de a ter agredido sexualmente há décadas.

Cristina Sambado - RTP /
Kent Nishimura - Reuters

Segundo uma análise da CNN, entre os documentos em falta estão três entrevistas relacionadas com uma mulher que acusou o presidente Donald Trump de a ter agredido sexualmente há décadas.

Um registo de provas fornecido aos advogados de Ghislaine Maxwell, associada de Epstein, inclui números de série para cerca de 325 registos de entrevistas de testemunhas do FBI – mas mais de 90 destes registos, mais de um quarto da lista, não parecem estar presentes no site do Departamento de Justiça, de acordo com a análise da CNN.Entre estes registos em falta estão três entrevistas relacionadas com uma mulher que disse aos agentes que Epstein a tinha abusado repetidamente desde que tinha aproximadamente 13 anos de idade, e que também acusou Trump de a ter agredido sexualmente.

Um deputado democrata apontou na terça-feira para os documentos aparentemente desaparecidos para questionar a extensão da divulgação feita pelo Departamento de Justiça e se a administração Trump seguiu a lei que exige que a agência publique os seus ficheiros relacionados com Epstein, o magnata norte-americano que morreu numa prisão federal em 2019 enquanto enfrentava acusações de tráfico sexual.Jornal da Tarde | 25 de fevereiro de 2026

Temos uma sobrevivente que fez alegações graves contra o presidente”, disse o deputado Robert Garcia, o principal democrata no Comité de Supervisão da Câmara, à CNN. “Mas há uma série de documentos, e aparentemente também entrevistas, que o FBI realizou com a sobrevivente, que estão desaparecidos, aos quais não temos acesso”.
Trump tem negado consistentemente qualquer irregularidade em relação a Epstein. 

Em comunicado, a Casa Branca classificou as alegações contra o presidente norte-americano como “falsas e sensacionalistas” e apontou para uma declaração anterior do Departamento de Justiça de que “alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump”.

Detalhes sobre os documentos desaparecidos relacionados com a acusadora de Trump foram anteriormente noticiados pela NPR e pelo jornalista independente Roger Sollenberger.
Departamento de Justiça afirma que está a cumprir a lei
Um porta-voz do Departamento de Justiça negou que quaisquer registos de Epstein tivessem sido apagados e sublinhou que o departamento estava a cumprir a lei.

Não excluímos nada e, como sempre dissemos, foram apresentados todos os documentos pertinentes”, afirmou o porta-voz. Os documentos não incluídos na divulgação eram “duplicados, confidenciais ou faziam parte de uma investigação federal em curso”, explicou sem responder a perguntas adicionais sobre ficheiros específicos.É possível que alguns dos documentos mencionados nos registos de prova de Maxwell estejam presentes noutros locais dos arquivos, sem os números de série listados nos registos, ou com esses números de série ocultados.

Muitos documentos foram também removidos e adicionados novamente ao site dos arquivos Epstein do Departamento de Justiça nas semanas que se seguiram à divulgação inicial.

Na semana passada, uma análise da CNN constatou que cerca de uma dúzia de relatórios de entrevistas adicionais também estavam em falta, mas estavam disponíveis online na tarde de terça-feira. Um dos dois registos de provas também estava offline na semana passada, mas agora está novamente acessível.

O porta-voz do Departamento de Justiça disse que foi “temporariamente removido para ocultação de informações das vítimas”.
Várias vítimas de Epstein afirmaram ter revolvido o site do Departamento de Justiça nas últimas semanas em busca de ficheiros que documentassem os seus próprios depoimentos ao FBI, sem sucesso.

"Todas nós estávamos à procura dos nossos testemunhos de vítimas", disse Jess Michaels, que foi abusada por Epstein aos 22 anos, à CNN após a divulgação dos ficheiros.

Relatórios de depoimentos com muitas partes censuradas e excertos em falta sugerem que "este Departamento de Justiça está, na verdade, a manipular a opinião pública de todo o país", argumentou Jess Michaels.

Entre as mais de três milhões de páginas de ficheiros divulgadas pelo Departamento de Justiça, encontra-se um conjunto de documentos que os procuradores federais forneceram aos advogados de Maxwell antes do seu julgamento por tráfico sexual, em 2021.
Ficheiros "302"

Estes registos incluem centenas de memorandos do FBI, conhecidos como ficheiros "302", que documentam depoimentos, bem como outros materiais relacionados com dezenas de testemunhas, algumas das quais depuseram no julgamento, de acordo com dois registos de provas incluídos na divulgação do Departamento de Justiça.

Os especialistas disseram estar preocupados com o aparente desaparecimento dos formulários “302”, uma vez que são essenciais para a compreensão da longa investigação do FBI sobre Epstein e Maxwell. Normalmente, os formulários “302”descrevem o que o entrevistado disse aos agentes, mas não incluem outras informações corroborativas ou opiniões dos agentes.

“É o tijolo mais básico e importante na construção da investigação”, disse Andrew McCabe, antigo diretor adjunto do FBI e colaborador da CNN.

Os detalhes sobre a maioria dos documentos “302” desaparecidos, incluindo a identidade das pessoas entrevistadas, foram amplamente omitidos dos registos de provas.

Mas alguns dos registos de entrevistas em falta parecem estar relacionados com uma testemunha que acusou Trump de agressão sexual.

A mulher ligou pela primeira vez para uma linha de apoio do FBI e relatou ter sido vítima de Epstein a 10 de julho de 2019, vários dias após a sua detenção, segundo os autos do processo.

Os agentes do FBI entrevistaram-na no escritório do seu advogado duas semanas depois, segundo um documento “302” que detalha o que ela disse na entrevista. A mulher contou aos agentes que Epstein abusou dela repetidamente numa casa onde estava hospedado na Carolina do Sul, depois de responder a um anúncio de serviços de babysitting. O abuso começou quando tinha aproximadamente 13 anos, esclareceu a vítimas de abusos sexuais.

A dada altura da entrevista, quando a mulher mostrou aos agentes uma conhecida foto de Trump e Epstein juntos, enviada por uma amiga, o seu advogado disse que estava “preocupada em incriminar outras pessoas, especialmente aquelas que eram figuras públicas, por medo de represálias”, segundo o documento.

O registo de provas de Maxwell menciona três documentos adicionais, referentes ao artigo 302.º, datados de agosto e outubro de 2019, relacionados com a mesma vítima, para além de três outros conjuntos de “anotações de entrevista”.

Nenhum destes documentos parece estar presente nos arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça, embora existam cópias de várias fotos que a mulher forneceu ao FBI, bem como registos de correspondência com o seu advogado.
Robert Garcia, congressista democrata da Califórnia, afirmou que, com base nos ficheiros não editados que analisou, a mesma mulher “fez graves acusações contra o presidente”.

Alguns ficheiros editados parecem fornecer mais detalhes sobre a acusação. Uma apresentação do FBI preparada em 2025, listando "nomes proeminentes" relacionados com Epstein, inclui a alegação de uma mulher (cujo nome foi omitido) de que Trump a forçou a praticar sexo oral e a agrediu na cabeça depois de Epstein os ter apresentado. O alegado abuso terá ocorrido entre 1983 e 1985.

Outro processo referia que a acusadora de Trump tinha uma ligação com a Carolina do Sul e que a pista foi encaminhada para um escritório do FBI para uma entrevista.

Um processo contra o espólio de Epstein inclui ainda uma vítima com detalhes biográficos que coincidem com as alegações feitas pela mulher na entrevista ao FBI.“Homens proeminentes”
Uma das autoras da ação, identificada como "Jane Doe 4", descreve Epstein a abusar dela na Carolina do Sul depois de esta se ter oferecido para cuidar de crianças. Os advogados da mulher escreveram que Epstein a levou de avião para Nova Iorque três ou quatro vezes e "levou Jane Doe 4 a encontros íntimos com outros homens proeminentes e ricos" que abusaram sexualmente dela.

Um desses “homens proeminentes” obrigou-a a praticar sexo oral, deu-lhe uma bofetada na cara e violou-a, alegou o processo. A parte do processo referente a Jane Doe 4 não nomeia o homem nem outros que alegadamente abusaram dela.

A mulher foi considerada inelegível para receber uma indemnização pelo Programa de Compensação às Vítimas de Epstein, um sistema criado para analisar de forma independente as reivindicações das vítimas, de acordo com um registo judicial de maio de 2021.

Não é claro por que razão foi considerada inelegível. Desistiu voluntariamente do processo em dezembro de 2021, e o seu advogado disse ao jornal The Post and Courier, no mês passado, que recebeu um acordo financeiro do espólio.

Não é claro o que aconteceu com a investigação do FBI às alegações da mulher. Um e-mail trocado entre agentes do FBI no verão passado e incluído nos ficheiros refere que "uma vítima identificada alegou abusos por parte de Trump, mas acabou por se recusar a cooperar", embora não especifique se é a mesma pessoa que Jane Doe 4.Pelo menos uma vítima de Epstein queixou-se em tribunal que o Departamento de Justiça não cumpriu com a obrigação de proporcionar total transparência e prestação de contas na divulgação dos ficheiros.

A vítima, Haley Robson, escreveu a um juiz federal no mês passado questionando por que razão os relatórios das entrevistas com as vítimas e outros documentos não foram publicados com os nomes das vítimas omitidos.

“Como sobreviventes, esta falha não é meramente processual — é profundamente pessoal”, escreveu Robson na sua carta ao tribunal. “A contínua omissão perpetua o mesmo secretismo que permitiu que estes crimes continuassem impunes durante anos.Exigência de revelação total dos arquivos
Democratas e sobreviventes da rede de tráfico sexual de Epstein exigem a divulgação dos restantes arquivos do caso. Numa conferência de imprensa, antes do discurso de Donald Trump sobre o Estado da União, pressionaram o Departamento de Justiça a divulgar os restantes registos do caso e a prosseguir com as investigações.
Acusam o Departamento de Justiça de falta de transparência e encobrimento, pelas muitas páginas dos arquivos que surgem censuradas.

A convite dos democratas, na última noite, algumas vítimas de Jeffrey Epstein assistiram ao discurso de Trump sobre o Estado da União.
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